
Uso excessivo de venenos agrícolas — muitos deles proibidos em outros países — ameaça a saúde, o meio ambiente e revela a fragilidade da fiscalização no Brasil.
Irrigação que fertiliza… e contamina
O avanço da agricultura irrigada é um dos grandes motores da produção de alimentos no Brasil. De norte a sul, pivôs centrais e canais de irrigação transformam paisagens semiáridas em cinturões verdes. O país colhe mais, exporta mais e movimenta bilhões.
Mas por trás desse sucesso produtivo há um lado menos conhecido: a dependência crescente de agrotóxicos. Em sistemas irrigados, o uso de defensivos é mais intenso e frequente — e as consequências ambientais e sociais começam a transbordar junto com as águas de irrigação.
“A irrigação cria condições ideais para a proliferação de pragas e doenças, e o produtor recorre ao veneno como resposta imediata. É um ciclo vicioso que contamina o solo, os rios e o próprio alimento”, explica o engenheiro agrônomo Carlos Mendes, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente.
Substâncias proibidas lá fora, liberadas aqui dentro
Nos últimos anos, o Brasil registrou recordes históricos de aprovação de novos agrotóxicos. De acordo com o Ministério da Agricultura, apenas em 2024 foram mais de 500 produtos liberados, muitos contendo substâncias que já são proibidas na União Europeia e em países da OCDE.
Entre elas estão nomes conhecidos: atrazina, mancozebe, clorpirifós e paraquate, todos banidos em nações desenvolvidas por risco de câncer, má formação fetal e contaminação de águas subterrâneas.
“O Brasil virou um cemitério químico de produtos que o resto do mundo rejeitou”, denuncia Ana Lúcia Reis, toxicologista da Fiocruz.
“Essas substâncias permanecem no mercado porque há pressão econômica e política para mantê-las, mesmo diante de evidências científicas robustas de seus riscos.”
Água, veneno e silêncio
A irrigação, embora essencial para a produtividade, também facilita a dispersão dos agrotóxicos. Quando o produtor aplica defensivos em larga escala, a água que escorre carrega resíduos para rios, lagos e aquíferos subterrâneos.
Estudos em áreas de arroz irrigado no Rio Grande do Sul e no Tocantins detectaram resíduos de agrotóxicos em mais de 70% das amostras de água coletadas. Em algumas, a concentração ultrapassava o limite máximo permitido pela Organização Mundial da Saúde.
“Essas moléculas não desaparecem. Elas voltam para nós pelo prato e pelo copo d’água”, alerta o professor Júlio Tavares, especialista em toxicologia ambiental da Universidade Federal do Paraná.
Fiscalização fraca e corrupção velada
O controle do uso e da comercialização de agrotóxicos é responsabilidade do Ministério da Agricultura (MAPA), da Anvisa e do Ibama. Na prática, porém, os três órgãos atuam de forma fragmentada, com recursos humanos e laboratoriais insuficientes.
Enquanto isso, o contrabando e a falsificação de agrotóxicos se tornam um negócio milionário. Operações da Polícia Federal, como a Operação Veneno Verde (2023), apreenderam toneladas de produtos ilegais vindos do Paraguai e da China.
“O problema não é só a falta de fiscalização — é também a corrupção. Há casos em que fiscais aceitam propina para ignorar irregularidades”, revela, sob anonimato, um auditor aposentado do MAPA.
BOX — Números que assustam
| Indicador | Dado recente |
|---|---|
| Agrotóxicos registrados em 2024 | +500 produtos |
| Ingredientes ativos banidos na UE ainda em uso no Brasil | 30 substâncias |
| Municípios com água contaminada por pesticidas (dados da Anvisa) | > 2.000 |
| Toneladas de produtos ilegais apreendidos (PF, 2023) | +1.500 toneladas |
| Casos de intoxicação notificados em 2023 | 16 mil |
Fontes: Anvisa, Fiocruz, Polícia Federal, Ministério da Agricultura, IBGE.
Consequências invisíveis
Os impactos do uso intensivo de agrotóxicos não se limitam ao campo. Pesquisas da Fiocruz e de universidades federais associam a exposição prolongada a pesticidas a câncer, infertilidade, problemas neurológicos e má formação fetal.
Nas zonas rurais, onde a pulverização é frequente, comunidades relatam odor forte no ar, irritação nos olhos e problemas respiratórios, especialmente em períodos de irrigação contínua.
Caminhos para um campo mais limpo
A boa notícia é que alternativas já existem. Experiências de manejo agroecológico e controle biológico têm mostrado bons resultados em culturas irrigadas, reduzindo custos e contaminação.
Mas, para se tornarem regra, dependem de políticas públicas firmes e de uma mudança de mentalidade.
“O produtor rural não quer envenenar ninguém. Ele precisa de assistência técnica e incentivo para produzir de forma sustentável”, defende Rogério Alvim, presidente de uma cooperativa agrícola no Triângulo Mineiro.
Um futuro entre a abundância e o risco
A agricultura irrigada pode continuar sendo o motor do agronegócio brasileiro — desde que o país enfrente de frente o problema do veneno.
Enquanto a fiscalização for frágil, a corrupção recorrente e a pressão política ditar o ritmo das liberações, o Brasil seguirá convivendo com uma contradição perigosa: produzir alimento em escala global e veneno em escala nacional.
“Estamos pagando caro pelo mito do progresso no campo. E a conta chega em cada copo d’água”, conclui a toxicologista Ana Lúcia Reis.
