
Os refrigerantes estão entre os produtos mais consumidos do Brasil. Estão nas mesas das famílias, nas escolas e nas propagandas que prometem felicidade em cada gole. Mas, por trás das bolhas e do sabor doce, existe uma combinação perigosa de açúcar, aditivos químicos e adoçantes artificiais que ameaça silenciosamente a saúde pública.
E, enquanto a ciência alerta para os riscos, o lobby bilionário das indústrias de bebidas continua influenciando políticos e atrasando medidas que poderiam proteger a população.
1. O Brasil Entre os Maiores Consumidores do Mundo
De acordo com o Ministério da Saúde e o IBGE (Pesquisa Nacional de Saúde), mais de 30% dos brasileiros consomem refrigerantes regularmente — um dos índices mais altos da América Latina.
O consumo excessivo desses produtos está diretamente ligado à obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão e problemas cardiovasculares, doenças que já sobrecarregam o Sistema Único de Saúde (SUS).
A Fiocruz alerta que a alta ingestão de açúcar e adoçantes artificiais está entre os fatores mais preocupantes do aumento de doenças crônicas no país. Cada lata de refrigerante comum contém cerca de 35 gramas de açúcar — o equivalente a sete colheres de chá.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que o consumo diário de açúcar livre não ultrapasse 25 gramas. Ou seja, uma única latinha já ultrapassa o limite diário seguro.
2. O Aspartame: O Doce Perigo “Zero Açúcar”
Nos últimos anos, as versões “zero” ou “diet” dos refrigerantes ganharam força, vendidas como alternativas mais saudáveis. Mas o perigo apenas mudou de forma: entrou em cena o aspartame, um adoçante artificial sintético 200 vezes mais doce que o açúcar.
Em 2023, a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), braço científico da OMS, classificou o aspartame como “possivelmente carcinogênico para humanos” (grupo 2B), com base em estudos que indicaram possível relação com câncer de fígado e alterações neurológicas.
No Brasil, a Anvisa permite o uso do aspartame, mas com limites máximos de concentração — limites que não consideram o acúmulo diário causado pelo consumo constante de bebidas adoçadas, doces, gomas e produtos ultraprocessados.
Estudos conduzidos pela Fiocruz e USP também levantam preocupações sobre o uso contínuo de adoçantes artificiais, associando o consumo elevado a alterações hormonais, mudanças na microbiota intestinal, aumento de apetite e maior risco de obesidade — o oposto do que o marketing promete.
3. A Epidemia Silenciosa: Doenças Causadas pelo Consumo de Refrigerantes
O excesso de açúcar e adoçantes presentes nos refrigerantes está entre os maiores responsáveis pelo avanço das doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) no Brasil.
Segundo o Ministério da Saúde, as DCNTs (diabetes, hipertensão, obesidade, doenças cardíacas e cânceres associados) representam 74% das mortes no país.
Entre os principais impactos do consumo de refrigerantes estão:
- Obesidade infantil e adulta: associada ao alto teor calórico e baixo valor nutricional;
- Diabetes tipo 2: resultado do pico glicêmico constante e sobrecarga do pâncreas;
- Doenças cardíacas: pelo aumento de triglicerídeos e inflamação sistêmica;
- Cáries e erosão dentária: devido à acidez e ao açúcar em excesso;
- Comprometimento hepático: risco aumentado de esteatose hepática (“fígado gorduroso não alcoólico”).
A Fiocruz reforça que essas doenças não são apenas consequência de hábitos individuais, mas de um ambiente alimentar tóxico, dominado por ultraprocessados, marketing agressivo e desinformação patrocinada.
4. O Lobby das Indústrias e a Omissão do Poder Público
Por trás da popularidade dos refrigerantes, há um poderoso lobby empresarial que atua para impedir qualquer regulação mais rígida.
Gigantes multinacionais financiam pesquisas “independentes” que minimizam os efeitos do açúcar e dos adoçantes, além de patrocinar eventos esportivos, programas de TV e até campanhas educativas, para manter uma imagem positiva perante o público.
Tentativas de taxar bebidas açucaradas — como já ocorre no México e no Chile — são frequentemente barradas no Congresso brasileiro, com forte resistência da indústria.
Segundo levantamento da Transparência Internacional, o lobby dessas empresas já interferiu em debates sobre rotulagem frontal de advertência e regras de publicidade infantil, atrasando por anos medidas de proteção à saúde pública.
A Anvisa e o Ministério da Saúde vêm enfrentando pressão direta desses grupos econômicos sempre que propõem regras mais transparentes sobre o teor de açúcar, sódio e adoçantes nos rótulos.
Enquanto isso, o consumidor segue mal informado, acreditando em slogans como “zero açúcar” e “leve”, quando na realidade esses produtos contêm substâncias químicas associadas a riscos graves à saúde.
5. Um Problema de Saúde Pública e de Responsabilidade Política
O Brasil enfrenta uma crise de saúde silenciosa.
De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS 2023), 1 em cada 10 brasileiros já é diabético, e mais de 60% da população adulta está com sobrepeso ou obesidade.
Grande parte desses números está ligada ao consumo exagerado de bebidas açucaradas e ultraprocessados, segundo a própria Fiocruz.
Apesar das evidências, o governo ainda é tímido em adotar políticas de combate efetivo.
Faltam campanhas educativas permanentes, restrições à publicidade infantil, incentivos fiscais a produtos saudáveis e taxação de bebidas ultraprocessadas — medidas já comprovadamente eficazes em outros países.
6. Caminhos para a Mudança
A solução passa por três pilares:
- Educação e informação:
A população precisa ser conscientizada sobre o que realmente está bebendo. Escolas e campanhas públicas devem expor os riscos do açúcar e dos adoçantes artificiais. - Políticas públicas corajosas:
É necessário enfrentar o lobby das grandes corporações e adotar medidas de restrição, como a taxa sobre bebidas açucaradas e rótulos de advertência visíveis, nos moldes do Chile e Uruguai. - Escolhas conscientes do consumidor:
Reduzir o consumo de refrigerantes e substituí-los por água, sucos naturais, chás e água de coco é uma forma simples e eficaz de proteger a própria saúde e, indiretamente, pressionar o mercado por produtos mais naturais.
Conclusão: Um Copo Cheio de Contradições
O refrigerante é o retrato de uma sociedade que valoriza o lucro acima da vida.
Enquanto o marketing vende alegria engarrafada, o que realmente está sendo entregue é doença, dependência e desequilíbrio metabólico.
E enquanto políticos e agências reguladoras hesitam em agir, o SUS paga a conta, tratando milhões de brasileiros vítimas da má alimentação.
A mudança depende de consciência, coragem política e pressão popular.
Beber menos refrigerante não é apenas uma escolha individual — é um ato de resistência contra um sistema que lucra com a doença coletiva.
Referências
Fiocruz. Alimentação, Nutrição e Doenças Crônicas Não Transmissíveis. 2024.
Ministério da Saúde. Vigitel Brasil 2023: Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas.
OMS (WHO). Guideline on non-sugar sweeteners, 2023.
Anvisa. Resolução RDC nº 18/2008 – Regulamento técnico sobre adoçantes em alimentos.
IARC/WHO. Evaluation of the carcinogenicity of aspartame, 2023.
IBGE. Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), 2023.
Transparência Internacional Brasil. Relatório sobre Lobby e Influência Corporativa na Regulação Alimentar, 2022.
