Por que as emissoras de rádio e TV não criticam o governo: o poder das concessões e da dependência financeira,  a demagogia na frente das câmaras.

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Enquanto a população sofre com escândalos, corrupção e políticas ineficientes, muitos se perguntam: por que as grandes emissoras de rádio e televisão não criticam com firmeza as ações do governo? A resposta passa por um fator essencial que pouca gente conhece — as concessões públicas — e por um sistema de dependência financeira e política que amarra a liberdade editorial de boa parte da mídia brasileira.


1. O que são as concessões públicas de rádio e TV

Diferente dos jornais impressos ou dos portais independentes, rádio e TV não são totalmente privadas. Para funcionar, precisam de autorização do governo federal, já que o espectro de rádio e televisão é considerado um bem público, pertencente à União.

Essas concessões são reguladas pelo Ministério das Comunicações e precisam ser renovadas periodicamente, mediante aprovação do Congresso Nacional.
Em outras palavras: se uma emissora desagradar demais o governo ou os políticos, corre o risco de ter sua concessão não renovada — o que seria, na prática, o fim de sua existência.

Ou seja, nenhuma emissora quer enfrentar diretamente quem tem o poder de decidir se ela continua existindo ou não.


2. O poder do dinheiro público: propagandas oficiais

Outro fator determinante é o financiamento indireto do governo.
Emissoras de rádio e TV recebem milhões de reais por meio de publicidade institucional e campanhas oficiais, vindas de ministérios, estatais e autarquias.

Essas verbas — que deveriam servir apenas para informar a população — acabam sendo um instrumento de controle político.
Quando o governo distribui verbas publicitárias de forma estratégica, premia os veículos mais alinhados e pune os que criticam demais.

Na prática, isso cria um ambiente de autocensura: os jornalistas e diretores sabem até onde podem ir sem comprometer os contratos milionários com órgãos públicos.

3. “Rabo preso” e interesses cruzados

Além da questão das concessões e do dinheiro, há outro elemento importante: as relações diretas entre donos de emissoras e o poder político.

Muitos dos principais grupos de comunicação no Brasil têm sócios, parentes ou aliados que ocupam cargos políticos ou mantêm contratos com o Estado.
Essas conexões criam uma teia de interesses que impede uma atuação jornalística realmente independente.

Quando a emissora depende do governo para existir, ganhar dinheiro e manter suas conexões políticas, ela se torna refém do sistema que deveria fiscalizar.

4. A falsa sensação de pluralidade

Mesmo quando parecem existir divergências entre canais — um mais governista, outro mais “crítico” —, a crítica é sempre controlada.
Nenhum deles vai até o fim, denunciando o sistema de corrupção ou as falhas estruturais do Estado, porque todos fazem parte do mesmo jogo.

Os debates televisionados e as reportagens críticas são limitados a certos temas, sem nunca tocar nas feridas mais profundas: a promiscuidade entre mídia, poder político e dinheiro público.

5. O resultado: uma imprensa domesticada

O resultado dessa estrutura é uma imprensa enfraquecidaseletiva nas críticas e submissa ao poder público.
Os jornalistas que tentam romper com essa lógica muitas vezes são afastados, censurados ou colocados à margem do mercado.

A sociedade, por sua vez, fica desinformada ou manipulada, acreditando em uma falsa neutralidade das emissoras tradicionais.

Enquanto isso, a corrupção, o aparelhamento e os abusos do Estado seguem sem fiscalização efetiva, porque quem deveria denunciar prefere o silêncio confortável dos contratos e concessões.

6. O papel da mídia independente

Felizmente, com o avanço da internet e das redes sociais, surgiram meios alternativos que não dependem de concessões nem de verbas públicas.
Blogs, canais independentes e jornalistas autônomos têm ocupado o espaço que as grandes emissoras abandonaram.

Esses novos meios incomodam o poder, justamente porque não estão amarrados à estrutura estatal.
Mas também enfrentam dificuldades financeiras e perseguições políticas, mostrando o quanto o monopólio da informação ainda é forte no Brasil.

Conclusão

As emissoras de rádio e TV brasileiras não criticam fortemente o governo porque vivem sob o controle do próprio governo.
Dependem dele para existir, para lucrar e para manter seus privilégios.
O resultado é um sistema de comunicação domesticado, cúmplice e complacente com o poder, que trai o princípio fundamental do jornalismo: fiscalizar quem governa.

Enquanto o país não tiver uma mídia realmente livre, a população continuará sendo manipulada por quem detém tanto o poder político quanto o poder da informação.