
Nas longas rodovias brasileiras, por onde circulam milhões de toneladas de carga todos os dias, há uma realidade sombria escondida sob o ronco dos motores e o brilho dos faróis noturnos: o uso do rebite, uma droga estimulante que permite aos caminhoneiros dirigir por longas horas sem descanso — e que tem causado tragédias incontáveis nas estradas do país.
O que é o rebite
O rebite é o nome popular das anfetaminas e seus derivados, substâncias estimulantes do sistema nervoso central. Elas aumentam a sensação de energia, diminuem o sono e reduzem a fadiga. No entanto, também provocam alucinações, irritabilidade, perda de controle e euforia, seguidas por um forte esgotamento físico e mental.
Entre as drogas mais conhecidas nesse grupo estão o Nobésio, o Desobesi-M, e comprimidos de procedência clandestina, vendidos em postos de gasolina, transportadoras e até nas próprias estradas — de forma ilegal, mas amplamente tolerada por uma fiscalização ineficiente.
Por que os caminhoneiros usam
A vida do caminhoneiro é marcada por prazos apertados, longas distâncias, fretes mal pagos e falta de estrutura para descanso. Em muitos casos, as empresas impõem metas quase impossíveis de cumprir dentro do tempo e das condições legais de trabalho.
Para não atrasar entregas e evitar multas contratuais, muitos motoristas recorrem ao rebite. A lógica é simples e cruel: quanto mais tempo acordado, mais quilômetros rodados — e, supostamente, mais dinheiro no bolso.
Mas essa conta nunca fecha. O que começa com um comprimido para “aguentar a viagem” termina, muitas vezes, em dependência química, colapsos físicos e acidentes fatais.
Os efeitos devastadores
O rebite mantém o motorista acordado por horas, mas a um custo altíssimo. Depois de certo tempo, o corpo entra em exaustão total. Os reflexos diminuem drasticamente, a percepção da velocidade é alterada e o cérebro começa a entrar em colapso por falta de descanso.
É comum motoristas “apagarem” de repente, perdendo o controle do veículo a 100 km/h ou mais. Caminhões desgovernados viram verdadeiros projéteis de toneladas nas estradas, causando mortes de famílias inteiras.
Além disso, há efeitos de longo prazo: insônia crônica, ansiedade, depressão, taquicardia, hipertensão e colapsos psicóticos. Muitos caminhoneiros relatam enxergar “coisas na estrada” após dias sem dormir, uma consequência direta das alucinações provocadas pela droga.
Fiscalização falha e impunidade
Apesar de o uso de rebite ser proibido e caracterizar crime, a fiscalização é extremamente falha.
Os postos da Polícia Rodoviária Federal (PRF) têm estrutura limitada, e os testes toxicológicos são raramente aplicados de forma aleatória. Normalmente, só são realizados após acidentes graves — quando já é tarde demais.
Há ainda o problema da corrupção e da conivência de empresas de transporte, que fecham os olhos ou até incentivam o uso para cumprir prazos. Em muitas rotas, há pontos de venda conhecidos de rebite, e todos sabem — inclusive autoridades locais — onde ele é encontrado.
Acidentes e estatísticas alarmantes
Segundo estimativas de especialistas em segurança viária, até 30% dos acidentes envolvendo caminhões têm relação com o uso de drogas estimulantes ou sono extremo.
O Brasil registra, todos os anos, milhares de mortes e feridos em colisões de veículos pesados. As vítimas não são apenas caminhoneiros — são famílias, motoristas de carros pequenos e motociclistas que cruzam o caminho de um caminhão conduzido por alguém sem condições físicas ou mentais de dirigir.
Cada tragédia revela a ponta de um iceberg de descaso: a ausência de políticas públicas eficazes, a falta de postos de descanso, jornadas exaustivas e um sistema que premia quem desrespeita os limites humanos.
O ciclo vicioso
O rebite cria um ciclo difícil de quebrar. O motorista usa para não dormir, dirige mais horas, desgasta o corpo e a mente, e precisa de mais droga para continuar. Quando o efeito passa, vem o “rebote”: sono incontrolável, desespero, tremores e depressão.
Muitos tentam compensar com mais café, cigarro, bebidas energéticas — e acabam misturando substâncias, o que aumenta ainda mais o risco de colapso.
O que precisa mudar
Romper esse ciclo exige ações conjuntas e sérias.
O governo deve intensificar a fiscalização, com testes toxicológicos obrigatórios e frequentes, punição para empresas que incentivem jornadas ilegais, e programas de apoio psicológico e médico para caminhoneiros.
Além disso, é urgente investir em infraestrutura nas estradas: criar pontos de parada seguros, locais de descanso e incentivos para o transporte legal e humano.
A sociedade também precisa compreender que o caminhoneiro é uma peça essencial da economia — mas não pode ser tratado como uma máquina. Cada entrega feita sob efeito de drogas é uma roleta russa nas rodovias brasileiras.
Conclusão
O rebite simboliza muito mais do que um problema individual — ele é reflexo de um sistema rodoviário desumano e mal fiscalizado, onde a produtividade vale mais que a vida.
Enquanto houver caminhoneiros dirigindo drogados por falta de alternativas, as estradas do Brasil continuarão sendo cenários de tragédias anunciadas.
E cada vítima é uma lembrança dolorosa de que o país ainda não leva a sério a segurança nas estradas — nem o valor da vida humana.
